Precisamos falar sobre o extraordinário August Pullman

O filme Extraordinário é, sem dúvidas, um sucesso de bilheterias. Com atuações primorosas e uma trama envolvente, não há quem não saia das salas de cinema encantado e emocionado.

 

 

O filme Extraordinário é, sem dúvidas, um sucesso de bilheterias. Com atuações primorosas e uma trama envolvente, não há quem não saia das salas de cinema encantado e emocionado. Mas a história de Auggie traz para nós a discussão sobre um tema de extrema importância: As relações entre a educação domiciliar e a inserção na comunidade escolar.

August Pullman, o protagonista da história, foi educado em casa até os 10 anos de idade, pois seus pais temiam como este se adequaria ao ambiente de uma escola devido sua doença genética, chamada Síndrome de Treacher Collins. Esta síndrome afetou a aparência de Auggie que teve que passar por dezenas de cirurgias para garantir uma qualidade de vida. Entretanto, as muitas cirurgias não conseguiram deixar seu rosto como de um garoto dito normal. Seus pais temiam o bullying com o menino e optaram, portanto, pelo Homeschooling 1 .

Após estar preste a seguir para o Fundamental 2 e Ensino Médio, a mãe do garoto, sabendo sua incapacidade de prosseguir sendo tutora de seu filho e também que, desta forma, precisaria o colocar em uma escola, preferiu fazê-lo ao final do Ensino Fundamental 1, a fim prepará-lo para os desafios do Ensino Secundário 2 . Não querendo estragar o prazer de ver o filme, esta adaptação, como se imagina, foi dolorosa e problemática e como educador, minha atenção se voltou para a questão educacional profunda da qual o filme trata.

 

O Homeschooling como opção

Os sr. e srª Pullman foram impactados pela notícia de um filho portador de uma síndrome genética rara. Na tentativa de amenizar as consequências sociais que a doença de August poderia trazer, sua mãe abriu mão de seu diploma e promissora carreira para educar seu filho em casa. Seu escritório virou uma sala de aula e seu conhecimento teve de se diversificar para ensinar de maneira eficaz.

A prática da educação domiciliar tem sido adotada por inúmeras famílias no Brasil – e já é amplamente praticado no restante do mundo –, como uma saída para o ambiente escolar cruel. As escolas, muitas vezes, são ambientes hostis e incentivadores de hostilidades e atitudes predatórias. O modelo educacional moderno, como profeticamente já anunciado por C. S. Lewis, em Abolição do Homem, é baseado nas leis da utilidade e do progresso, partindo dos mesmos pressupostas de educação da Alemanha Nazista, incentiva a uma seleção dos mais aptos e analisa o processo de ensino-aprendizagem de maneira quantitativa. Entende-se que a educação, partindo do humanismo relativista e individualista de nossos tempos, busca a autorrealização do estudante, tornando este o centro do processo educacional, e, portanto, sendo o aluno medida de si mesmo.

O construtivismo, o modelo – o único – pedagógico ensinado nas universidades, traz um belo discurso que coaduna com a filosofia pós-moderna. Um aluno autônomo que busca seus interesses, que desenvolve, a partir de seus padrões individuais, os objetivos de aprendizagem. Esse modelo se arroga neutro, mas na verdade é uma pedagogia de fatos desconexos, na qual nada se relaciona, pois tudo é relativizado. Diante de uma brutalidade factual – na qual tudo é assustadoramente desconectado –, todo o universo é visto a partir de uma visão existencialista e particular de cada indivíduo.

Para fugir, à vista disso, desta didatologia pretensamente neutra, pais se tornam homeschoolers, a fim de livrarem seus rebentos desta ideologia nefasta. A opção por educar em casa, traz a segurança para os responsáveis de saber o que exatamente é ensinado na sala de aula e o que valores morais e éticos são desenvolvidos em seus filhos. A prática do homeschooling garante uma educação holística da criança, uma vez que toda as partes do corpo são educadas: razão, sentimentos, volições e imaginação. A intimidade da educação domiciliar permite a efetividade do que o filosofo cristão Chesterton definiu como educação:

“A EDUCAÇÃO não é um assunto, e não trata de assuntos. Em vez disso, é a transferência de um modo de vida”.

É um engano, todavia, pensar que uma solução para o modelo construtivismo é somente uma educação feita pelos progenitores dos infantes. Sem um modelo adequado, o homeschooling será uma representação em pequena escala do massacre escolar moderno. O filme nos mostra justamente como uma educação domiciliar bem-feita faz que a criança se desenvolva além dos níveis curriculares impostos pelos sistemas educacionais. Entretanto, o longa expõe, também, um impasse de grande parte das famílias educadoras por todo o mundo, a incapacidade ou dificuldade de tutorar os estudos a partir do Ensino Fundamental 2.

De uma escola que ama a morte para uma escola que ama a vida Auggie foi para o seu primeiro dia de aula com seu capacete de astronauta. O artefato era um mecanismo que o protagonista utilizava para se camuflar no mundo dos normais, com o capacete ninguém repararia em seu rosto. Em outro momento, durante o ano letivo, August era rejeitado e tratado como um portador de uma doença contagiosa, o que o colocou em momentos de profunda tristeza.

O que é retratado na Beecher Prep School, escola onde August estuda, não é coisa de ficção ou exagero da sétima arte, é, na verdade, a realidade da maioria dos colégios de todo o mundo. Nas salas de aula do Brasil, ainda na época do politicamente correto, esta é a regra das instituições de ensino. E isto está relacionado com a visão humanista e relativista da educação, já supracitada. Em épocas de relacionamentos líquidos, de morais relativas e gerações podres de mimadas 3 , atitudes como as dos colegas de classe de August são condenadas, mas praticadas constantemente. Na verdade, a esquizofrenia do pensamento contemporâneo mostra tal dicotomia: enquanto se acha um absurdo desprezar o outro, o individualismo de nossos tempos nos incentiva a buscarmos nossos prazeres, vontades e desejos acima e apesar dos demais. Ou seja, se somos nós as medidas de nós mesmo e definimos, individualmente, o que seja belo, correto e verdadeiro, logo, o que fazemos, decidimos ou pensamos, ainda que afete a outrem, é um problema unicamente nosso. O egoísmo pós-moderno, a virtude dos heróis de hoje, é a fonte do mau ao próximo que publicamente combatemos, mas cultivamos de maneira privada.

Este pensamento é o que o Dr. Rushdoony chama, em uma de suas palestras, de amor institucionalizado pela morte. Quando o homem se torna a medida de si mesmo, este torna o pecado como seu princípio moral norteador. Definindo o que é bem e o que é mal, como tanto desejamos no Éden (Gn 3:6), definimos a partir do caráter humano corrompido pelo pecado. Nossa cosmovisão cristã, mostra como homem, após a queda, teve seu juízo, razão, vontades e sentimentos afetados pelo pecado. O Homem, no paraíso, decide abrir mão da regra de Deus (Teonomia) pela sua própria regra (Autonomia). Assim, sua percepção do mundo criado e do seu próximo foi comprometida, preferindo buscar interesses próprios, por mais escusos que sejam, em detrimento do outro (Gn 4). Gerar dano ao outro é uma consequência inevitável do pecado que assola toda a humanidade. Portanto, quando uma pedagogia da Autonomia é incentivada, estimula-se uma guerra contra Deus e suas leis dentro da sala de aula (Gn3:22-24).

O medo de muitos pais em relação aos colégios é este amor pela morte que não querem imprimir em seus filhos. Como, portanto, podemos tornar a pedagogia dos colégios em um lugar de amor institucionalizado pela vida? A resposta para esta pergunta se encontra em uma educação na qual as leis de Deus são observadas. Somente num contexto em que o amor pelo próximo é significado é que podemos construir um ambiente diferente da escola de Auggie. Quando nossa pedagogia ensina ao estudante a olhar o outro como alguém de igual dignidade e valor, é possível aceitar diferenças, particularidades e dificuldades do condiscípulo. Os colégios só serão lugares seguros, se incentivarmos o amor pela vida. Ora, se amar a morte significa viver de acordo com nossas próprias concupiscências, uma educação para vida pressupõe obediência à vontade de Deus e conhecê-lo (1Rs 3:14). O princípio de uma educação para vida é o autoconhecimento e o conhecimento de Deus: conhecer a si e ao criador é entender a nossa dinâmica otológica enquanto seres sociais e culturais. Jesus, em sua última oração, falou que a Vida Eterna é conhecer a Deus com único Deus verdadeiro e a ele mesmo como Salvador (Jo17:3). Desta forma, a medida que ensinamos partindo dos mandamentos do Senhor, educamos para vida e vida em abundância (Jo 10:10).

O pavor de Isabel e Nate Pullman, e de todo pai homeschooler, em relação às escolas só será dissipado se o modelo educacional empregado for centrado em uma visão do outro como alguém que porta em si dignidade e, por carregar a imagem de Deus (Gn 1:26), merece respeito e amor. Se queremos que nossas salas de aulas – quer em nossas casas, quer em nossas escolas – não sejam masmorras de tortura e centros de formações relativistas, devemos buscar uma educação que seja a “transmissão de humanidade de um homem a outro homem” (C.S. Lewis), centrada nos mandamentos de Deus.

1 Termo inglês para a educação domiciliar.
2 Secondary School corresponde aos 7º e 8º anos aqui no sistema brasileiro.
3 Referência ao livro Podres de Mimados de Theodore Dalrymple.